"O que fazem hoje os Ídolos de ontem?"
Reportagem de Armando de Castro - Fotos de José de Castro.
Ícaro de Castro Mello: Voava no salto com vara! Mas não chegou a tirar o "Brevet" de Aviador!
Vocês, Possuidores de alguma fumaça literária. Devem lembrar-se das historia de Ícaro, a tal que muito antes de inventarem o caso do jabuti e a festa no céu e o tombaço na pedra e a carapaça espatifada e depois grudada em pedacinhos... Isso mesmo, Muito antes, mas muito antes mesmo, o moço grego "rufiando as asas, sacudindo as penas", como diria o Raimundo Correia se vivesse naqueles tempos heróicos, acabou se esborrachando, como se sabe, Mas que andou voando um bocado ninguém vai discutir.
As Asas do Café
O Sr. Vicente Corrêa de Mello, Casado com Dona Maria Joana de Castro Mello era um dos mais prósperos corretores e exportadores de café da Praça de Santos, ali por volta de 1900 e pouco. Morava em São Vicente onde nasceram seus filhos: Ícaro, José Carlos, Maria Julieta e Isabel. Nesses tempos a rubiacea dava dinheiro. Tanto é que quando os pimpolhos foram tomando vulto de gente, o Sr. Vicente Corrêa de Mello mudou-se para São Paulo a fim de encaminha-los nos estudos. E saiu-se bem, obrigado. O Ícaro arquiteto civil. O José Carlos, Advogado, as meninas, formadas pelo mackenzie, no curso de secretariado. Como se vê o, o corretor de café voava suas coisas visando o progresso da filharada. Vôo curto porém, Longe do destino de Dédalo? Nem tanto, Vamos dizer que o Sr. Vicente Corrêa foi um Dédalo prático aristotélico; preparou a ascensão dos filhos sem usar as asas de cera, Só isso.*
Custou para o Vôo
O interessante é que o perfilado de hoje tem o nome de Ícaro de Castro Mello e seu genitor orgulhava-se de ser um dos "cobras" do remo há alguns decênios. Pois o garoto não quis saber de seguir o esporte do pai. Mas, já com seus 15 anos nas costas, Ícaro era um rapazinho franzino que o pai resolveu entrega-lo aos cuidados do famoso professor de ginastica, o sueco Detthow, que orientava os moços do instituto Jaguaribe, Interessante ainda é que o atletismo tomou conta do gosto de Ícaro .Aliou-se com rapazes da sua idade, nas proximidades da rua Higienópolis e formou um "varzeano" de atletismo, entretanto em disputas com outros clubes do mesmo naipe, situados na rua Maranhão, Sabará, Itacolomi, todos os domingos, E dessas "peladas" surgiram alguns nomes que se tornaram famosos com o tempo, como o Ícaro, os irmãos Taliberti, Luís Santos e outros. Por fim, em 1930 fazia o nosso perfilado, a sua primeira competição, defendendo as cores do antigo Germania, atual Esporte Clube Pinheiros de São Paulo, na prova de salto em altura.
Carreira de Astro
1931 - 1º. Lugar no salto em altura, (1.600m no Campeonato Acadêmico), defendendo as cores do Mackenzie,
1932 - Eliminatórias das Olimpíadas de Los Angeles, 1.800m;
1933 - Recordes; 1.780m (novíssimos); 1.830m (juniores); 1.870m (brasileiro);
1934 - 1.920m (sul-americano);
1936 - 1.930m (preparação para as Olimpíadas);
1938 - recorde sul-americano 1.935m
... Enfim, o homem foi embora, sempre na modalidade de salto em altura. Só em 1939 começou a competir na modalidade de salto com vara. Encerrou a carreira em 1952, depois de uma monumental performance em Santiago do Chile...
A Família
Ícaro de Castro Mello casou-se em 5 de Outubro de 1944, com Dona Zilah Carvalho de Castro Mello, com quem teve três filhos, Eduardo, Cristina e Roberto. Eduardo e Cristina formaram-se arquitetos e Roberto, o caçula, formou-se em Economia.
Expulso do CPOR
Quando estourou a Revolução Constitucionalista, Ícaro era aluno do CPOR, servindo 4º. Regimento de Artilharia Montada, de Itu. Como bom Paulista, inscreveu-se como soldado de São Paulo. Esteve ma linha de frente e andou "vendo o russo". Com 19 anos sofreu impactos tremendos como por exemplo, o seu comandante de bateria , capitão Silvio Flemming, numa observação, levar 11 tiros nas costas para morrer depois de 4 horas, esvaindo-se em sangue...
Mas a guerra acabou, E o exercito a bem da disciplina, botou para fora de suas fileiras, os paulistas peitudos que pegaram em armas contra a "Legalidade", Vale, contudo, o ano de 34, com ele a anistia geral e Ícaro, "nosso heró", pode continuar seu curso de oficial.
Concentração? Bobagem.
Ícaro de Castro Mello, confronta-se com os atletas de hoje e externa seus pontos-de-vista:
"- Como amador consciente de minhas obrigações e responsabilidades , principalmente quando defendia as cores de São Paulo e do Brasil, nunca precisei que alguém me viesse dizer o que eu devia ou não devia fazer, Nunca me concentrei. Pelo contrário. Preferia não pensar nas competições e para isso buscava me divertir na véspera Dançava, pintava o caneco, claro que não descia a excessos como comes e bebes e coisa e tal. Mas ia deitar tarde , e chegava as pistas na horinha da competição e batia meus recordezinhos, sim senhor!"
Cobra na Profissão
Curso terminado na Escola Americana, 1° e 9° ginasiais no Mackenzie e diploma "pego" na Escola Politécnica de São Paulo, o Ícaro ganhou a vida como Profissional de Engenharia. Um arquiteto de mão cheia . Especializou-se em arquitetura esportiva, realizando os seguintes trabalhos:
Estádios: reforma de "Urbano Caldeira" ; Projeto dos Estádios do Noroeste, Taubaté e Guarani, além do Municipal de São Bernardo.
Ginásios: Ibirapuera, Bauru, Ribeirão Preto, Água Branca, Franca, Grêmio de Porto Alegre.
Piscinas: Água Branca (água quente), Tupi F. C. (Juiz de Fora), Sociedade Pietro Mascagni (Jabuticabal).
Clubes: Bagres (Franca), Noroeste, Campestre de Jacarezinho (Paraná), Clube de Campo de Maringá, de Moji das Cruzes, Jóquei clube de Uberaba, C. A. Santista e outras obras...
"A vida assim é Melhor"
Ícaro não teve patrão e isso vale alguma coisa. Folgado? Nada disso. Levantava as 6 da matina e as 7 saia de casa para correr as obras. Só lá pelas 10 horas chegava ao escritório , às vezes com toda a clientela esperando. Almoço ? Lá pela cidade mesmo. As 19 horas encerrava a jornada e ganhava o caminho do lar. As quartas e sábados , ia jogar golfe. Aos domingos, cinema, teatro ou beira-mar com esqui, barco a vela , tênis. Manias ? Algumas Possuía cerca de 90 flâmulas, 60 taças, 180 medalhas e 70 diplomas.
Comia bem, Preferencia por camarões, feitos de qualquer maneira, Não fumava, mas apreciava um bom uísque.
Era Voar Muito...
Afinal nem tudo pode dar certo na vida de um homem. A senhora, sua genitora, D ª. Maria Joana, quando soube que o Sr. Vicente Corrêa dera sua riquíssima coleção de moedas de ouro à Campanha Paulista de 32, teve uma observação justa: Se o casal já tinha um filho no Exercito Constitucionalista, podia muito bem guardar aquelas recordações de uma intensa vida esportiva!
E aquele recorde sul-americano ganho na véspera? Ícaro deixara o exército, pois havia sido convocado em 42 (Grande Guerra). O Brasil preparava-se para o sul-americano de 1945, no Chile. Ícaro, fora de forma, casado há poucos meses, com excesso de peso, mesmo assim atendeu ao convite que lhe fez a CBD Além desses problemas havia outro muito mais serio...
"- Devido a guerra não estávamos importando varas para os saltos. A minha estava em petições de miséria, toda rachada toda esfiapada, Precisei recobri-la com esparadrapo o que a tornou muito grossa e pesada."
Ícaro foi para o Chile e "deu o golpe" no chileno Frederico Horn, oficial da marinha do seu pais e um dos "papões" do salto com vara. A prova estava marcada para quinta feira. Ícaro chegou Domingo a pista e ficou esperando o adversário. Não ia treinar tanto é que estava de agasalho, como quem não queria nada. Em todo caso como insistiram realizou um saltozinho de 3,70m sem esquentar o corpo, sem coisa nenhuma. Isso assustou o chileno que no dia da prova, apresentava-se afobado, Ícaro na maciota, saltou seus 3,90m e venceu a competição apenas na base da classe, uma vez que forma que era bom estava longe de possuir na ocasião.
Das competições não vieram apenas medalhas, marcaram também uma imensa lista de amizades, não apenas no Brasil, é de ver a sua correspondência de pessoas queridas residentes no Japão, Filipinas, Alemanha, Áustria, Bolívia e outros.
"- Não posso me queixar. Possuo um diploma de honra ganho na Olimpíada de Helsinque de 1952; fui o único brasileiro participante daquela exposição de arte olímpica. E neste ano de 58 recebi o titulo de membro honorário do instituto Americano de Arquitetos sediado em Washington. Entre oito arquitetos estrangeiros fui o único contemplado e tomei tal fato como uma honra à classe de profissionais brasileiros, da qual faço parte. Você continua achando que tenho voado muito? Pois, nem tanto. O 'Brevet' de aviador não foi possível para o 'papai' aqui, devido ao medinho da 'patroa'."